Hoje decidi por recontar a história de Marcela (nome ficticio, é claro). Recebi o e-mail contando essa história já há algum tempo, mas ainda não havia criado coragem suficiente para recontá-la. Na verdade, a história de Marcela é uma triste história cotidiana, que ocorre aos milhões todos os dias, a todo o momento, de um milhão de maneiras diversas e em absolutamente todas as classes sociais. A história nunca é a mesma, mas os personagens sim: uma mulher e um imundo ser desprezível e inominável que nos faz vergonha à classe dos seres vivos chamados de humanos. E o enredo? Violência doméstica. Agressão. Humilhação. Covardia em seu nível mais desonesto. Tão visível e tão calado.
Marcela conta que é uma mulher "comum" no quesito beleza. Possuí instrução, nível superior, separada possuí filhos de seu primeiro casamento e é daquelas que se rotula hoje em dia como "mulher independente".
Logo após a separação a mulher decidida e independente deixou-se levar por uma absolutamente normal e aceitável fragilidade emocional. A separação, de um casamento de quase 15 anos fora difícil, ainda que ela soubesse ser inevitável. E qual separação não é? Ninguém se une e forma uma família pensando ou preparando-se para um dia desfazer-se dessa união seja lá pelo motivo que for (assunto para outro texto, certo?!). Enfim, envolveu-se. Deixou-se levar pela suavidade feminina que independência nenhuma supre e acreditou que ainda teria chance de viver um conto de fadas. Ele a fez acreditar nisso. E ela acreditou. Ele foi para a casa dela. Na verdade ela se confunde ao informar como tudo começou, diz apenas que foi tudo tão rápido e pensando com aquela razão própria de quem não pensa quando apenas está com pressa de se dar uma segunda chance de ser feliz., não sabe contar como tudo começou enfim .... realmente uma loucura adolescente passada hora, só pode ser, é o que ela deduz por mais de uma vez quando conta sua história.
Moravam em cidades diferentes. Eram bem diferentes mas lhe parecia que era exatamente aquilo que dava leveza aos dois. Ela não precisava estender os assuntos de sua profissão que lhe eram tão pesados ao final do dia. Ele lhe apresentava emoções diferentes que jamais ao que hoje ela chama de "sã" consciência ela faria. Ele estava saindo também de um relacionamento que lhe havia machucado muito. Estava superando, era o que contava, é claro, já que mais tarde Marcela descobriu que nada naquela pessoa era verdade. Deixou seu emprego "por uns tempos" porque isso lhe distanciaria muito de Marcela, já que viajava muito e queria dar atenção a Ela naquele momento, ficar o mais juntos possíveis e estreitar os laços de amor e cumplicidade. Que mulher não se sentiria a melhor e mais amada do mundo com uma atitude dessas?
E assim foi: Marcela sendo encantada e deixando-se cegar. Mas, na vida, a verdade não consegue se esconder muito tempo por trás das mentiras e Marcela começou a perceber que alguma coisa estava errada, muitas coisas estavam erradas. E o seu encantador ordinário também percebeu que Marcela começava a desvendar o veneno de seus enganos. Foi quando veio a primeira agressão daquele que precisava mostrar que sua força e sua violência era suficiente para fazê-la silenciar.
É chocante ler o relato dessa mulher contando da primeira vez que fora espancada. Como todas nós, jamais passou pela cabeça dela que ela seria um dia violentada por um companheiro. Ela sempre ouviu a respeito, sempre leu e assistiu sobre isso, mas nunca isso seria concebível de acontecer em seu relato de vida. Mas aconteceu.
Era um final de semana qualquer. Uma noite como qualquer outra. Foram a um barzinho em uma cidade vizinha, ouvir uma boa música, beber algo, relaxar, se divertir. Ela foi ao banheiro e quando voltou, sem esperar aquele ... aquele ... juro que um dia ainda vou conseguir encontrar uma palavra para definir esse tipo de "coisa" ... começou a gritar e gesticular com ela sem que ela soubesse o que estava acontecendo. Instintivamente ela pediu que fossem embora dali. Ele, obviamente, aceitou, afinal ele sabia o que iria fazer. Entraram no carro e ele começou a dirigir de forma absolutamente histérica, o que já abalou por demais Marcela com o medo lhe dominando cada vez mais. E assim, aquela "coisa" continuou com acusações e gesticulações de que ela teria olhado pra alguém, que alguém teria olhado pra ela, sabe-se lá!. A verdade é que até hoje ela não sabe explicar os motivos disso. E o motivo disso é simples: não havia motivo nenhum a não ser a necessidade de ele ter um motivo. Ele começou a agredi-la, ali, dentro do carro, em movimento, na estrada, em alta velocidade.
Ele batia a cabeça dela no carro com violência. Puxava seus cabelos. Empurrava. A dor da violência sofrida, somando-se ao medo de um acidente de trânsito, a vergonha. Pensava em seus filhos e gritava o "por quê", o "por quê" daquilo.
Chegaram em casa e seu pesadelo ainda não havia terminado. Ela correu para um quarto dos fundos acreditando que aquilo cessaria; mas não havia acabado. Ele lhe rasgou todo o vestido, lhe jogava ao chão e lhe arrastava como se ela fosse um animal morto. Ela sufocava os gritos e lhe implorava baixinho e desesperada pedindo para que ele acabasse com aquilo. Os seus filhos! Ela não queria que eles ouvissem aquilo. Ela não conseguia acreditar e só pedia a Deus que seu filho não estivesse escutando aquela barbaridade.
Ela correu então para parte da frente da casa, enrolada em uma coberta, já com as roupas todas rasgadas. Ele continuou lhe arrastando pelo chão e ela se encostou na parede entre chutes e pontapés. Ele saiu por uns momentos de perto, e poucos segundos depois voltou e nos olhos daquele maldito estava a assinatura cruel da violência desmedida e despropositada. Ela realmente acreditou que ele lhe desferiria um golpe fatal. E em meio a menção de fazê-lo ele de repente parou. Ela já sem forças alguma sequer reagiu. Ele se afastou e alguns segundos depois percebendo que talvez aquilo tivesse finalmente chegado ao fim, ela se levantou devagar e dirigiu-se ao banheiro. Ele, andando de um lado ao outro.
Marcela tomou um banho e já não tentava mais entender o que havia acontecido. O dia já se preparava para amanhecer. E Ela, certamente, nunca mais seria a mesma. Nunca!
É uma imagem assustadora a que ela via nos olhos daquele homem. Não era algo que ela conseguisse reconhecer nem alguém que ela conhecesse. Ela não é capaz de nos dizer e nenhuma mulher que passa por isso o é.
Passado aquilo ele lhe implorava perdão com docilidade dizendo que não sabia o que havia acontecido, que tinha sido dominado por uma coisa ruim. Que não era ele, que ele não se lembrava de nada e lhe pedia para contar o que ele havia feito. Ele se mostrava indignado consigo mesmo. Dizia que a amava e lhe fez a promessa esperada de todos: isso nunca mais vai acontecer. Mas, aconteceu. Sempre acontece.
A grande mulher guerreira se transformou naquela madrugada. Perdeu suas forças e deixou-se abater por um sentido que a destruiria aos poucos. Acima de qualquer outro: a vergonha. Que cala, silencia e corrói as mulheres vitimas de violência. Hoje, após ler a longa história de Marcela eu finalmente consigo entender o que sentem essas mulheres que talvez, nunca realmente conseguiram dizer a palavra tão simples que a destrói tão profundamente: a vergonha. Muito mais do que qualquer outra coisa: amor, tristeza, dor, rancor, ódio, aversão ... nesses casos, o que realmente silencia essas mulheres é, sem dúvidas a vergonha.
Eles se culpam por terem apanhado. Por se deixarem ter apanhado. Elas são dominadas por uma vergonha tão infinita que lhe impede de compartilhar esse acontecimento com outras pessoas que talvez pudessem lhe dar forças e lhe compreender. Mas a verdade que a vergonha não só as impede como as fragilizam. Ninguém irá ficar do lado delas. Elas irão escutar aqueles tipos anúncios: "eu te avisei" "estava na cara" "esse cara nunca prestou" "esse cara nunca me enganou" ou o pior: "você deve ter dado motivos, ninguém faz isso do nada". Essa é a sepultura dessas mulheres. Porque ninguém consegue acreditar que essas "coisas" fazem sim isso por absolutamente nada. Aliás, mesmo que tivessem qualquer tipo de motivo nada justificaria essa atitude.
Elas, então, preferem não correr risco de serem, ainda mais humilhadas.
Marcela não se despiu apenas da roupa que estava toda rasgada. Se despiu, também, da venda que lhe cegava e de qualquer tipo de amor que sentia por aquele homem. Por uma semana se manteve calada, sem conseguir dizer qualquer coisa a respeito, estava congelada dentro de si mesma. Não queria olhar para as pessoas porque sentia que todos estavam vendo em seus olhos o que havia acontecido. Nunca soube se filho ouviu alguma coisa e jamais teve coragem de perguntar e diz que prefere, realmente, não saber.
Ele mostrou toda sua violência contra ela própria e passou a desferir pequenas ameaças veladas. De uma sutileza tão audaz e inteligente que nem combinava com aquele cerébro tão restrito. Ela, havia sentido a força de sua violência e temia por seus filhos (nunca disse ao certo quantos filhos tinha, ou melhor, tem em seu relato) e buscava uma forma de conseguir com que ele fosse embora sem que isso lhe causasse um novo acesso de fúria. Ela realmente tinha medo dele agora. E o seu medo crescia quando pensava em seus filhos. Ele era capaz de qualquer coisa, agora ela sabia. Ela tinha medo até mesmo que ele fosse embora e com raiva voltasse no meio de uma noite, invadisse sua casa e fizesse algo contra seus filhos. Essas "coisas", esses homens malditos sabem realmente como amedontrar uma mãe.
O tempo foi passando.
Marcela sabe que antes de conseguir se livrar dessa "coisa" ela apanhou ainda outras duas vezes, mas curiosamente não consegue se lembrar da segunda vez. Só sabe que foi pelo mesmo motivo: sem motivo nenhum e que foi tudo dentro de sua própria casa. E que felizmente, dessa vez, seus filhos não estavam. Mais a terceira vez ... e a última ... essa ela se lembra.
** essa história será continuada e outra postagem, por favor aguarde! **


