DIVÓRCIO
Há algum tempo Maria percebia que a vida insistia em lhe dar sinais de que as coisas tinham chegado no seu limite. Não eram apenas pequenas coisas que incomodavam. Eram muitas pequenas coisas que se somavam e pesavam demais em seu travesseiro.
E assim é. pobres travesseiros que sofrem os lamentares de um dia inteiro!
Poder ver com tamanha lucidez em meio a uma turbulência que lhe parecia um pesadelo inacordável lhe custou muito mais do que lágrimas, queda de cabelos ou o surgimento de algumas rugas. Lhe roubou o brilho nos olhos; a certeza do olhar; a falta de vida no viver diário.
Vida. Sua vida. Onde andava sua vida, Maria? Por onde Tú andavas enquanto Sua Vida andava?
Era chegada a hora da separação.Inevitável..
Maria se culpava por demais. pensava demais. Sentia demais. Tudo demasiadamente torto. O que Ela era afinal? Quem Ela tinha sido esses anos todos? Como fugir à comodidade de tudo o que já estava como estava a tanto tempo. Que já era o que era e pronto.Como fugir do pouco que colecionamos em nossas vidas de previsível e, portanto, confortável. Essa separação tornaria tudo imprevisível. Ela suportaria esse recomeço? Tantos anos já haviam se passado. Tanto tempo.
Tempo.
Foi nesse momento que Maria pareceu receber a dose de coragem necessária, que sempre vem sabe-se de onde e muda toda nossa vida. E escutou-se:
"Maria, Maria, Maria,
Você foi você. Simplesmente você. E você sempre será você. Simplesmente você. Apenas aceite o Tempo. O Tempo que tudo transforma, também transforma os humanos. E assim, você foi transformada e jamais há de se dizer que deixou de ser você, apenas, transformada. Aposente os sapatos apertados e desfaça-se das roupas que lhe pesam. Apenas aceite que muitas coisas de sua vida já não lhe cabem mais nesse Tempo e que perderam o sentido de ser em algum Tempo que já passou. Despeça-se e apenas, siga."
E foi assim que Maria divorciou-se. Divorciou-se de si mesma. De si mesa em Tempo passado,para recomeçar. Recomeçar consigo mesma em Tempo Agora.
E assim somos todos nós. Todos um pouco Marias fugindo da realidade mesmo quando ela nos bate na face e nos grita para sermos nós em cada Tempo. Quanto tempo perdemos nos negando apenas por não aceitar as transformações do próprio Tempo que a todo momento vivenciamos e transformamos.
Sapatos altos demais que insistimos e usar quando nosso andar já não mais os quer. O medo de buscar novos horizontes profissionais quando já não somos mais felizes no que fazemos. A relutância absurda e egoísta em aceitar a convivência com novas tribos de amigos ou a exibição de um novo estilo de roupas. O adiamento da ruptura de uma relação que nos oprime nos deixa infelizes. A rejeição de sentimentos. O considerar mais importante o olhar alheio do um nosso olhar contente ...
Tanta falta de divórcio! tanto falta de divórcio com o que realmente devíamos romper. tantos pequenos grandes momentos de vida desperdiçados ao longo do Tempo ... quantos "eus" verdadeiros deixados de serem vividos a seus mais que perfeitos tempos.

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